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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013 0 comentários

Fragmento - Verde Folha

     Verde Folha

     De repente, olhando em seus olhos verde folha, pude finalmente compreender que aquele que eu amava estava morto. Então, eu chorei. Eu pranteei meu luto até sentir-me secar de qualquer lágrima. Eu compreendi o real sentimento de perder algo precioso. Perdi, junto com o brilho naqueles olhos, sonhos, planos, esperança...
     Não se pode ressuscitar os mortos. Eu sabia que sofreria com a falta daquele pedaço de meu ser até o último dia de minha vida, mas a vida seguiria seu curso. Eu estava viva.
     Então olhei novamente em seus olhos verde-folha, e pude finalmente perceber que aquele que amei não havia morrido. Ele nunca existiu senão em meu coração, em minha fértil realidade interior.
     Aqueles olhos verde folha, nada mais eram senão janelas de uma realidade só existente para mim, e o brilho que via neles, nada mais eram, senão reflexo e meus próprios olhos.
      
     Os olhos... são capazes de ver, apenas o que queremos ver...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012 0 comentários

Fragmento - Não muda nada

     Fragmento - Não muda nada

     - Eu te amo tanto, Aninha! Eu não entendo como você pode fingir que não sente nada! Eu posso ver nos teus olhos, no teu sorriso. Eu posso ver como teus gestos refletem os meus. Eu sinto... eu... - Perdeu-se em um suspiro, sentia -se explodir havia jogado aquele jogo por tempo demais, esperado tempo demais, sentia como se todas as suas chances já houvessem lhe escapado.
     Ela permaneceu ali, com seu olhar penetrante, fixando apenas os olhos dele. Brilhantes olhos verdes claro, com pequeníssimos pontinhos coloridos, refletiam todas as cores do universo. Ela continuou muda, o tempo parava toda a vez que encarava aqueles olhos. Brincava de contar quantas cores conseguia encontrar. Amava aqueles olhos mais do que a si mesma, eram os mesmos que habitavam seu mais belos sonhos... Era todo o universo. Calmo. Aconchegante. Assustador. Infinito.
     - Eu não vou dizer. - Sentiu seus olhos umedecerem com lágrimas que tentava segurar. - Não posso dizer. Enquanto mantiver as palavras trancadas aqui dentro, posso seguir em frente. Eu não me arrependo. Eu acredito no caminho que escolhi. - Agora as lágrimas rolavam fartas por suas faces, comprimiam sua garganta. - Não mudaria nada, mesmo que eu dissesse. Não mudaria.

     Ele podia sentir o sofrimento dela, como dele próprio. Sentia que sempre fora assim, possuíam uma ligação empática, apesar da distância. Sempre sabiam, de alguma forma, quando o outro não estava bem. Mas ali, a sua frente, vê-la chorar, foi mais dolorido do que qualquer outra coisa. Não devia tê-la pressionado. Sabia que não deveria, sabia que era errado. Mas sentia-se no limite, sentia que não tinha mais controle daquela situação, havia chegado ao se limite.
     Sentia necessidade de consolá-la, fazer sessar aquelas lágrimas. Abraçou-a, era tão pequena. Chorando assim, com o rosto enterrado em seu peito, parecia uma criança. A princípio ficou imóvel, rígida, não respondeu ao seu abraço, mas também não recuou. Na verdade, ela sabia que jamais recuaria, mesmo sabendo que deveria. Depois de um curto instante envolveu os braços ao redor dele, apertando o rosto com mais força contra seu tórax, chorando convulsivamente, ela segurou a camisa em suas costas, com suas mão pequenas fechando-as em punho, tentando conter as lágrimas. Ele afagou-lhe as costas, beijou seu cabelos, murmurou em seu ouvido:
     - Shhhhhhh... Tudo bem... Tudo bem...
     Ela sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, com a proximidade daqueles lábios em seu ouvido. Sentindo aqueles braços ao seu redor, o calor e conforto que ela já conhecia, antes mesmo de se tocarem, quase como se fosse parte dela própria. Ela virou o rosto de leve, em um movimento automático, encostando o ouvido em seu peito, escutando seu coração fora de ritmo. Ele pousou de leve seus lábios nos dela, aproveitando a proximidade de seus rostos, ou talvez apenas agindo automaticamente, obedecendo seu corpo, como se ele se movesse sozinho, sempre em direção àquela garota. Novamente, como ela sabia que seria, ela não recuou, sentiu um gemido escapar-lhe por entre os lábios, quase inaudível, mas o suficiente para que ele intensificasse a pressão sobre seus lábios, sentiu sua mão pressionar-se à base de sua cintura, uma mão grande, morna, ocupava todo os espaço de um lado a outro de sua fina silhueta.
Então, por um instante, curto e ao mesmo tempo longo demais, ela esqueceu a si mesma, esqueceu quem era, onde estava, e tudo o que existiu foi aquele beijo, e tudo o que existiu foi o universo. Calmo. Aconchegante. Assustador. Infinito.
     - Desculpe. - De súbito ele se afastou, com as faces em brasa, como que voltando a si, a um momento de perder completamente o controle. - Desculpe, eu sei que não devia... Não deveria... Desculpe.
     Ele foi se afastando dela, aproximando-se da porta, a porta que levava de volta ao salão, onde muitas pessoas dançavam. A porta que o levava para fora da sacada onde se encontravam.
     - Eu vou te amar pra sempre. - Ele deu uma risada sem humor e fixou seu olhar nela, esboçando um sorriso torto. - Mas você já sabe disso, eu não preciso dizer. E não preciso ouvir também. Eu sei que não muda nada.
     Ele saiu pela porta. As lágrimas rolaram ainda mais fartas. Tentava entender o que havia acontecido. Tinha certeza de não ter dito as palavras, mas mesmo assim, de alguma forma, durante aquele breve e ao mesmo tempo logo beijo, sentia que elas lhe haviam escapado, fugido ao controle. No lugar onde elas habitavam agora, um buraco vazio, doído. Ao seu redor, as palavras a esmagavam, agora, grandes demais para serem colocadas de volta. Pesadas demais para serem carregadas... Ela gritou para a noite, mas a música estava alta do lado de dentro e ninguém escutou.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012 0 comentários

Fragmento - Recomeço

     Ele se aproximou, depressa, a passos largos, cruzando o hall da praça de alimentação. Eu fiquei imóvel, mal podia me fazer respirar, não acreditei no que estava vendo, não conseguia me fazer acreditar que o estava vendo á minha frente depois de tanto tempo, dez anos desde a ultima vez que o vira pessoalmente. Mais impossível ainda aqueles olhos cravados em mim, como lanças, que me causavam uma dor física. Mais impossível ainda a velocidade com a qual se aproximava, ele estava vindo em minha direção. Meu cérebro não era capaz de assimilar tudo aquilo, estava acontecendo rápido demais.
     Ele parou, ao lado da cadeira onde eu estava, permaneci imóvel, sem conseguir respirar. Com a mesma velocidade com a qual ele atravessou o salão, ele pousou gentilmente sua mão direta, sempre fria ao lado do meu pescoço, seu pulso tocava levemente o lóbulo da minha orelha, eu queria sumir, desaparecer, mas não pude me mexer, meu corpo já não me pertencia mais. Ele fechou levemente seus dedos nos meus cabelos, na base da nuca, senti uma dor leve e aguda em alguns fios que foram puxados, ele virou meu rosto na direção dele, senti meu peito inalando o ar, na tentativa vã de me ver libertar, o aroma era doce e amadeirado, não me recordava deste cheiro, mas fazia minha cabeça girar.
     Ele curvou-se sobre mim, em um tempo que pareceu uma eternidade, diminuindo a distância entre nós, enquanto eu observava seu rosto mais e mais próximo. Quantas vezes eu vi este rosto nos meus sonhos...
     Ele tocou gentilmente seus lábios nos meus, estavam quentes, eu senti uma leve pressão, meus lábios formigaram sem saber como me fazer respirar de novo. Senti uma onda percorrer meu corpo, dos lábios aos dedos dos pés, como uma bolha de ar muito grande procurando um caminho para fora do meu corpo. Senti meus dedos dos pés e das mãos amortecerem, meu cérebro estava se rendendo à falta de oxigênio, senti meu pescoço, até então tenso, afrouxar-se sob seu aperto. Ele ergueu a outra mão e gentilmente tocou meu rosto, sua mão cobria-me metade da face, onde tocava, minha pele se aquecia sob seu toque frio. Senti o impulso de tocá-lo, mas enrijeci meus braços, até então soltos ao lado do meu corpo, apertei firmemente as bordas da cadeira onde estava sentada.
     Depois e um tempo que pareceu curto de mais, ele se afastou devagar, com olhos presos aos meus, eu finalmente consegui me lembrar de como respirar, em um suspiro profundo, me senti recuperar os sentidos. Ele pôs-se ereto, soltando a mão direita da minha nuca, mas permanecendo com a outra mão em meu rosto, sem tirar seus olhos dos meus. Eu permaneci com os braços rígidos segurando as bordas da cadeira, minha respiração desordenada, meu coração pulsava audivelmente em meus ouvidos. Meus olhos não conseguiam se libertar do brilho verde naqueles olhos.
     Em um movimento lento e longo, sua mão esquerda se estendeu em minha direção, com a palma voltada para cima, chamando pela minha. Eu apertei as bordas da cadeira com ainda mais força, não compreendia o que eu estava sentindo, não conseguia raciocinar, estava confusa. Sua presença sempre me causava este efeito, confusão e insegurança, e de repente, eu voltava a ter quinze anos. Em um movimento quase involuntário, minha mão esquerda afrouxou-se e foi em direção a dele. Minha mão pequena pousou sobre a palma de sua mão, tão maior que a minha, como se ali pertencesse. Meu coração se sentiu mais leve, e era como se todo o universo que eu carregava dentro do peito tivesse virado pó. Eu não podia saber, o que este simples gesto implicaria, e nem o quanto esta escolha muda refletiria em minha vida, mas eu não poderia permitir-me escapar aquela mão mais uma vez. E assim, sem palavra alguma sua mão se apertou em torno da minha."
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011 0 comentários

Fragmento - Quebra-cabeça

     E, depois de tanta tempestade, a primeira peça, finalmente encontra o seu lugar.
     Essa é a primeira peça do quebra cabeça.
     E com esta peça encontrando o seu lugar, todas as outras, como que atraídas por uma força magnetica, uma a uma, encontrarão o seu lugar. Então, finalmente, tudo irá se encaixar.

     O quadro estará completo.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011 0 comentários

Fragmento - Águas

     Fitava as paredes cinza como se hipnotizada. Imaginava figuras e rostos deformados nas imperfeições do cimento. Sentada com o queixo sobre os joelhos, sentia seus pés entorpecidos sob o jato de águia quente.
     Esperava que aquela água pudesse lavar suas tristezas, levar suas incertezas. Tinha vontade de permanecer ali, naquele cubo solitário envolto em vapores. Sentia seus olhos lacrimejantes ardendo. Aquela solidão combinava perfeitamente com sua tristeza.
     Sentia vontade de gritar até sentir o ar fugir-lhe dos pulmões. Queria poder assim, arrancar tudo aquilo de dentro de si, mas não podia.
     Perdeu a noção do tempo. Perguntava-se se estava ali há horas, ou minutos. Provavelmente horas, pois suas articulações doíam, seus pés estavam dormentes e seus dedos enrugados pela umidade.
     Sabia que teria de levantar a qualquer momento. Teria de abrir aquela porta e enfrentar o mundo lá fora.
     Queria poder segurar aquele instante, mas seu tempo ia escoando-se com a água. Não podia segurar o tempo, como não podia evitar a água escoando entre seus dedos.
     Então chegaria a hora de levantar-se. Recolheria a tristeza e guardaria novamente na caixinha pequena a que pertencia. Vestiria seu melhor sorriso e abriria a porta.
 
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